sabe quando fechamos os olhos e uma imagem nos vêm à mente. a imagem de um detalhe, de algo a que não demos muita atenção ao longo do dia e que, de repente, toma-nos de assalto em um outro momento qualquer e sem motivo aparente. foi assim que me lembrei de uma foto que minha mãe me mostrou. a imagem de uma menina em tratamento contra câncer que meu padrasto apadrinha. ele sempre faz esse tipo de coisa. sempre nos ajudou muito e foi uma espécie de pai para mim e para meu irmão.
acontece que ele está depressivo. perdeu os dois irmãos em 2012. teve sequelas decorrentes de um derrame - o terceiro - no final de 2011. parou de trabalhar e acha que agora é um inútil. ontem, ele me falou isso com lágrimas nos olhos e hoje pela manhã, enquanto eu voltava para casa, ouvindo meu inseparável mp3, a foto da menininha me tomou de assalto. quando minha mãe a mostrou, eu não lhe dei muita atenção; estava fechando uma compra pela internet. mas, depois revivi a situação e queria que meu padrasto pudesse ler os meus pensamentos. ele não é um inútil. nunca foi. é de muita ajuda. para a menininha que sorria feliz e careca na foto e que prosseguiu o tratamento com ajuda dele, para mim, para meu irmão, para minha mãe. ele não é um inútil por não poder mais trabalhar e nem caminhar com destreza. as pessoas não são úteis ou inúteis. são pessoas boas ou más. e meu padrasto se encaixa na primeira leva.
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